28 de janeiro de 2009

bosques a arder


Levo flores desfeitas.
Dou-tas.

O acto de receber activa
explosões de cor,
vivas divergências cromáticas que
acentuam o caos tumoral
que se ramifica e nos sorve.

Somos duas maçãs presas
a árvores lancinantes de pressa,
construídas ao acaso
pelo livre arbítrio do homem.

(acto contínuo, choras
lágrimas calcificadas,
pareces uma estátua zangada com os pombos)

Sem medidas,
somos todos os dias flores,
agrestes sentimentos calvos.
Velhos que se redundam,
que coxeiam e são agraciados
pela nossa comiseração
(máscara da denúncia à inutilidade).


imagem de friedmad

27 de janeiro de 2009

John Hoyer Updike

1932 - 2009

Ps:. só tenho pena do jornalismo que torna isto possível no dia da morte de Updike. Um texto repleto de ironia (veiculada sobretudo por aspas) nestas circunstâncias era desnecessário.

20 de janeiro de 2009



Mães navegantes em luas filiais
são terras, planetas,
orações subordinadas a luas enfermas.

Progenitoras expectantes
pelo eclipse lunar.
Lobas abruptas sem força,
sem luz (sem cio)
lunáticas
alunares

Mães sem etimologia
são mulheres sem género,
são homens, crianças,
sem género,
sem número, sem filhos.

18 de janeiro de 2009



Prendo-te as mãos ao peito,

Elas caíam de outra forma.


Há muito tempo deixou de fluir sangue,

Divino vinho do corpo,

Por esse corpo árido, sem uvas.


Prendo-as e elas insistem em cair,

Rebolarem pelo teu corpo

(passarem pelo ventre originário, precursor: éden)

E caírem num chão que,

De tão fecundo as destrua,

Tornando-as úteis, funcionais.


Por enquanto são só crentes,

Mãos em concha, juntas.

São ligação Deus – músculo sagrado

(coração, fibra primeira)

Só te servem de consolo, não escavam a terra,

Inúteis na criação,

Na vivência desmesurada.


5 de janeiro de 2009



Céus trespassados por lâminas,
Incautos cérebros azuis, escarlates.
São crianças chorando
Ao sabor da espada aérea,
Que desce e enviesa na terra fértil.

Significados rolando por toda a parte,
aleatórios.
Barthes chora por isto,
por não poder assistir, incrédulo,
a tudo isto,
a pontos ministeriais que captam a retina
movem-na até esse ponto central, focal.
focam-na!

Crepúsculo esvaído em sangue,
que no acto do corte se afoga
no vermelho lânguido
que flui, descendente.

As lâminas retomam o trabalho sensorial,
sensuais sabres ordenados padres
trazem o Apocalipse.

Céu, arranha-céus, prédio, casa, campo, flor.
A verticalidade desemboca no oceano
e o sangue funde-se ao azul-marinho das sereias.


fotografia de Roland Barthes

25 de dezembro de 2008

És uma faca afiada.


Uma faca afiada reveste-se de uma grande ambiguidade que advém da nossa capacidade (maior ou menor) de manuseamento : ou nos é muito útil - e ficamos gratos por isso - ou, no caso de um manuseio deficiente ou falta de cuidado, serve para nos cortarmos e com isso a sua utilidade desaparece por completo. Não há meios termos no que respeita a facas afiadas.

A verdade é que, normalmente, só nos damos conta da nossa maior ou menor apetência com facas afiadas depois de nos cortarmos.







"Words are blunt instruments
Words are a sawed off shotguns

Come on and let it out
Come on and let it out
Come on and let it out
Come on and let it out"

Jigsaw falling into place - Radiohead

24 de dezembro de 2008

Degrau


A pele entra em ebulição, os olhos gelam, o corpo é um completo paradoxo.

Sento-me numa escada e vejo outros subirem, descerem. Os objectivos de vida sobem e descem com eles. Eu, estático, fico-me naquele mesmo degrau. Os objectivos desistiram de mim e desceram. Saíram porta fora e comprimiram-se no vento gelado da rua.


21 de dezembro de 2008


Era um homem pacífico.
Acordava todas a manhãs e só pensava chegar a casa à noite, ver televisão e dormir. Nada de dinheiro ou desavenças com vizinhos do lado. O dinheiro (e sucedâneos) e vizinhos odiados só lhe tiravam o sono. A verdade é que este homem não era homem. Era um bicho, daqueles bichos que vemos nas mobílias e que quando nos sentem fogem a sete pés. Ele era assim. Fugia de nós, fugia de tudo o que o ligasse a nós. Ele constituía uma civilização à parte. Mas pagava contas, usava-se do nosso metro, comia e bebia da nossa comida e bebida, a televisão era produzida por nós. Era um estrangeiro (Meursault?) que se habituara a viver como nós. Havia uma coexistência pacífica (até porque ele era um homem pacífico) entre nós. Havia um choque de civilizações.
E digo que "Era um homem pacífico" porque já não é. Agora trabalha dez horas por dia, embirra com tudo e todos, (quer matar um vizinho e tudo!),

é um de nós.




"And then taking from his wallet
an old schedule of trains, he'll say
I told you when I came I was a stranger."

5 de dezembro de 2008

gato-homem (2)

os corpos movem-se elipticamente,
pintando o crepúsculo de um azul-baço.
seguem-me o fio do olhar e queimam-no,
sopram-no friamente, são corpos quentes


Nasci outra vez, conheci novamente a morte do gato. Só tem duas horas de vida e não sabe de nada.

[Chego a casa. Está a beber água. os lábios mordem-se, entrelaçando-se. a água mistura-se com os silvos, secos, do sangue.]

Deita-se e dorme, inconsciente do sofrimento que nos move. dez minutos, e noite.
sento-me ao lado. durmo e acordo.

30 de novembro de 2008

gato-homem (1)

O gato expele as mandíbulas com a força de toda a sua matéria. O todo não é o absoluto e o gato leva dias nisto, nesta luta incessante entre um ser que é tudo e um parasita que nem respirar ou dormir permite.
E nós morremos por isto. Morremos todos os dias milhões de vezes quando resvalamos no abismo do nada e o nosso todo é impotente.
Há bichos-nada piores que tudo, que todo o nosso ser.

Vejo-o ainda espernear, vagabundeando por entre as divisões com a estranheza de quem conhece mas vê tudo com novos olhos.

24 de novembro de 2008

Excerto da vida de um poeta 'standard'

'Leio um poema e quero parar de escrever. É tudo uma grande farsa. É tudo um mito sofrer como se sofre num poema, num coração. Fôssemos todos santos e continuava a ler poemas. Mas não. Poemas já não leio. E depois estão bem escritos!

É como se eu mentisse de uma forma bonita/ e o lesado aplaudisse/chocado, lacrimejante,/ depois de me ouvir. Há na poesia um tanto de rebeldia/ por só se usar parte de uma página/ e um muito de egocentrismo/ por se pensar que os outros se preocupam com o estado do nosso coração,/pelos nossos sentimentos.

Por isso desisti de ser poeta. Desisti de falar de ti. Ou da outra. Ou de alguém que não conheço sequer. Desisti de estar a pensar em rimas internas, em aliterações que acentuem uma ideia. Desisti do poema. Já não quero ser poeta! Já não quero acordar e ter de apontar num bloco sujo do dia-a-dia o meu primeiro pensamento. De me deitar e apontar uma última frase que inicie uma estrofe. Desisti disso tudo, desse nada que é a poesia.'


A poesia-cebola está démodé

abismo reincidente

X entrou em casa, como sempre pela janela. Tinha perdido a chave há algumas semanas e não era incómodo proceder daquela forma, dada a parafernália do rodar-a-chave-e-ouvir-um-clique. Bater à porta não era simplesmente uma boa opção.


Entrou.


O vento nocturno deturpava os murmúrios que varriam a casa com a inquietude característica dos murmúrios. Fechou a janela e lentamente a inquietude transformou-se numa sensação de aperto. Um aperto, uma estranheza que só o acompanhava na sua casa. Lá fora o vento calava tudo e todos. O fumo do cigarro empoeirava-lhe a visão.
Quando o pressentiram, as vozes transformaram-se em silvos, tentando-o dissuadir de ir ao seu encontro.


Mas ele foi.

Havia nas vozes mais do que uma conversa trivial sobre qualquer coisa trivial. O som dos silvos era borbulhante, tinha nele gotas salgadas que inundavam todas as palavras que iam sendo ditas.
Chegou à cozinha e estavam elas, falando calmamente, tal qual actores num monólogo. a cozinha dividida por uma cortina inexpressiva de insultos e insinuações anteriores à chegado de X.
'O que é que se passa?' disse
'nada... vai-te embora'-a voz parecia querer fugir dali.
X. viu tudo mudar de sentido. Elas estavam agora do mesmo lado da barricada, cavando um abismo capaz de o distanciar das suas vidas. Acto contínuo foi para o quarto, quase sem pensar nas palavras dela.

Deitou-se. A luz ligada assinalava a presença de tempos remotos quando, em pequeno, não conseguia dormir e a sua mãe a ligava.
e adormeceu, com a mãe em dois sítios diferentes.